
A causa das tragédias é sempre humana.
Minha recordação mais antiga de inundação é de 1959. Tinha, à época, quatro anos de idade e morava em Belo Horizonte – MG. O Ribeirão Arruda, que corta a cidade, alagava tudo e suas águas arrastavam tudo em seu caminho. De lá pra cá, mudaram-se vereadores, prefeitos e governadores; nasceram e morreram milhares de eleitores, pelos mais diferentes motivos, sendo alguns pelas águas do dito córrego. Também mudaram a cor e o modelo dos móveis flutuantes nas águas revoltas. No mais...
A cultura judaico-cristã (por favor, não confundam com sentimento religioso) só permite o “mea culpa” em termos do relacionamento com o místico. Nosso comportamento quase nunca é objeto de reflexão. Não gostamos se incomodações internas.
Muito antes das chuvas que, por cerca de quatro meses, têm caído sobre boa parte de Santa Catarina, as pessoas menos desavisadas já sabiam que desmatamentos provocam enchentes, que vales e várzeas são o natural caminho das águas e que a Lei da Gravidade também atua sobre encostas habitadas ou beirando estradas. O que foi feito em relação ao estilo de planejamento da ocupação e uso do solo lá em Belo Horizonte pós-59, no Vale do Itajaí pós-83 (por exemplo) e em quase todo o país desde então? O que foi feito para que os profundos cortes em morros não se transformem em inesperados aterramentos de estradas e pessoas? Praticamente nada, como o sabemos.
A atual tragédia repetir-se-á? Muito provavelmente, sim.
A não ser que nós, moradores de áreas de risco ou não, reflitamos sobre o que temos escolhido em termos de políticas públicas e solicitemos de governantes e legisladores, qualquer que seja o partido, um outro estilo de administrar nosso viver. Porque a responsabilidade por tragédias como a que vivemos no momento é dos que escolhem, não dos escolhidos. Principalmente, por causa do que solicitamos da parte destes.
Com a palavra, os que ainda podem usá-la. Caso queiram, é claro!
E boa sorte pra nós todos!
Ps.: a foto foi emprestada do site oficial do STAMMTISCH e retrata a enchente de 1911, em Blumenau - SC